Modelos e métodos
Os materiais
Em 1906,
a escrita vertical era comparada à escrita da máquina de escrever.
O primeiro caderno de caligrafia, de Francisco Vianna, é datado de 1908. Foi publicado até 1989 pela Editora Melhoramentos.
Esses cadernos traziam a representação de escola, nação, comportamento, etc. Em geral, seus conteúdos tinham um cunho nacionalista.
No início do século XX,
os cadernos de caligrafia supriam a falta de papel. Constituíram um currículo unificado, homogêneo.
as cartilhas também constituíram um tipo de homogeneidade. Eram representações da modernidade.
o desenho tem papel fundamental, pois era quando a criança exercitava a destreza motora, base para a prática da escrita.
o desenho está associado ao Método Analítico ou Global.
A leitura
O advento da Escola Nova ressignificou o uso do livro na escola, através da freqüência à biblioteca.
No lugar dos livros textos, os livros.
Da leitura intensiva passa-se para a leitura extensiva.
Outra proposta é a divisão entre a leitura silenciosa e a oral.
Livro Texto
↓
leitura intensiva
↓
leitura oral
↓
concentração na forma da palavra
↓
leitura expressiva, aferida pela leitura de um trecho
Vários livros
↓
leitura extensiva
↓
leitura silenciosa
↓
concentração no conteúdo
↓
leitura compreensiva, aferida por questionários
↓
mais produtivo e veloz, devido aos “saltos dos olhos”
A leitura extensiva é a leitura da informação: fragmentada, descontextualizada e trivial.
A leitura silenciosa era considerada mais eficaz porque combinava velocidade com conteúdo resultando em um processo racional.
As estratégias usadas para essa mudança foram as criações das bibliotecas escolares, dos clubes de leitura e do ensino realizado a partir de pesquisas temáticas.
Era a configuração da leitura prazerosa.
A Escola Nova se preocupava em controlar o livro. Tinha que se ler um “bom” livro.
Um “bom livro” era aquele que tinha conteúdo, além de ser bonito.
A relação entre conteúdo e forma (materialidade) estava ligada, portanto, à idéia de otimização.
Quanto melhor fosse a organização do livro mais rápida e com mais qualidade se leria.
A escrita
O ato de escrever
“É tão complexo o ato de escrever que, segundo alguns fisiologistas, exige o concurso de uns 500 músculos de corpo humano. Todos êles devem trabalhar perfeitamente coordenados durante a escrita. Assim, por ex., os músculos do braço devem contrair-se no momento preciso para mover a mão ao longo da linha, sem impedir os movimentos dos dedos.” (Aguayo, 1935, p. 322)
A escrita vertical
“Faremos a escrita das lições dadas no quadro com calligraphia vertical; é tal a semelhança dessa letra com a de fôrma, que pouca dificuldade encontrará depois a criança, na passagem do typo manuscrito para o impresso.”
A posição do corpo do aluno deveria ser tal que os “(...) ante-braços, possam se apoiar na mesa, formando com o bordo inferior ângulos de 42º; o papel deve ser colocado sobre a carteira de tal modo, que seus bordos laterais formem com os da mesa ângulos retos”(Marques, 1936, p.51).
“Para escrever a letra vertical, o menino deve estar collocado deante da carteira com o corpo bem direito, o thorax não tocando a aresta posterior da carteira, de modo a não opprimir a dilatação pulmonar [a respiração]. A columna vertebral será assim vertical. O tronco deve ficar apoiado, a prumo sobre os dois ischions, as pernas cahindo verticalmente, a cabeça bem direita, distante do papel, trinta e cinco centímetros” (Franca, 1928, p. 113).
“O habito de cruzar as pernas escrevendo, diz Dufestel, colloca o rachis e o tronco em inclinação viciosa e produz uma convexidade do lado do membro mais elevado. O mesmo acontece com as meninas, que juntando desigualmente as sáias, se sentam levantando mais uma anca. Muitas vezes, o menino quando escreve se assenta mal, repousando o peso sobre uma nádega, adiantando mais um pé, tomando assim a posição uniglutea, produzindo uma curva ou de convexidade esquerda ou de convexidade direita, conforme elle repousa mais sobre a nádega esquerda ou direita” (Idem, p. 113-114).
Escrita vertical e o método analítico
“Obedecendo a este methodo deve o professor começar o ensino por exercicios de facil execução, taes como o traçado de palavras escriptas e conhecidas, onde entrem letras simples, como: o, i, u, c, n, e, etc. Ha para o ensino da Calligraphia uma infinidade de cadernos preparados, em que cada auctor procura fazer valer a superioridade do seu. Devemos porem dizer que no ensino da escripta, como de qualquer disciplina, o methodo melhor é aquelle que segue a marcha natural da intelligencia; que vae do conhecido, do concreto, para o desconhecido, para o abstrato; é por isso que aconselhamos a começar o ensino da escripta pelo traçado das letras na composição das palavras e não pelo traçado das linhas, das hastes, dos elementos formadores das letras” (Franca, 1928, p. 115-116).
As críticas
“(...) o tipo redondo vertical não mais satisfaz as exigências da ativa vida hodierna. É um tipo de letra vagarosa, que não mereceu boa aceitação, principalmente como escrita comercial; para a escrituração mercantil sempre se deu preferência à letra inclinada, mais desembaraçada, fácil e rápida.
“Além disso, a experiência nos convenceu que a caligrafia vertical não póde ser praticada em nossas escolas públicas (...) O tipo usual de carteira escolar, geralmente não adaptado à estatura do aluno, não permite que êle enxergue o que está escrevendo, se conservar o corpo direito e a margem inferior do caderno paralela ao rebordo da carteira” (Freitas, 1938, p. 65).
Caligrafia muscular
“Se o tempo permittir, será útil também ensinar á secção masculina um typo de letra mais commercial do que o redondo vertical, como por exemplo, o que se adopta actualmente na maioria das escolas americanas, em que está em voga uma escrita ligeiramente inclinada para a direita, de corpo oval, sem talhe, bem legível e de execução fácil e rápida, sendo os traços das letras reduzidos aos mais simples e essenciaes. Constituem bons modelos deste typo de letra (que não se deve confundir com a antiga calligraphia americana), os publicados e preconizados por Palmer.” (Programma, 1925, p. 74)
Caligrafia muscular é um método
“Movimento muscular é um methodo de escrever que emprega o músculo de ante-braço, deixando a mão livre para escorregar sobre o papel. (...) O methodo requer uma posição commoda e natural do corpo. Não ha movimentos desnecessários ou perdidos.” (Idem, p. 238)
“Com elle se pode fazer letra vertical, deitada para trás ou para diante, grande ou pequena, leve ou carregada, com penna fina ou grossa, mas a melhor é a linha leve, de tamanho regular, e inclinada para a frente, e que dá mais rapidez, facilidade e resistência ao trabalho.” (Idem, p. 242)
Sem posição rígida ...
“(...) o aluno se mantenha em frente à carteira (...) Os braços devem ficar sobre o tampo da carteira, mantendo-se os cotovelos a dez ou doze centímetros do corpo. Devem se manter quase eretos o corpo e a cabeça, com ligeira inclinação para a frente. (...) a mão esquerda manterá o papel e movê-lo-á quando o ajustamento da posição o exigir. O papel colocado diante da criança deve estar inclinado para a esquerda.” (Marques, 1936, p. 59)
“A calligraphia muscular é um methodo e não um typo de letra, ou melhor, é um methodo de escrever que emprega, não os dedos, mas os músculos do ante-braço, deixando as mãos livres para que possam escorregar pelo papel. Permitte qualquer estylo de letra (vertical, inclinada para a esquerda ou para a direita) grande ou pequena, leve ou carregada, se bem que favoreça uma escrita leve, de tamanho regular, inclinada para a frente, que permitte mais rapidez, facilidade e resistência no trabalho.” (Braga, 1937, p. 52)
A defesa
Em defesa do uso do modelo (ou método) muscular, afirmavam os educadores que ele favorecia: o ensino da escrita por torná-la legível, fácil e rápida; o desenvolvimento físico das crianças, uma vez que, evitava posições defeituosas que acarretavam distúrbios respiratórios e desvios na coluna vertebral; além disso, sua base teórica partia de estudos da fisiologia do movimento das mãos e da psicologia da aprendizagem da criança.
O desenvolvimento
O desenvolvimento da caligrafia muscular iniciava com os exercícios de coordenação motora, ora ritmados por simples contagem ora por meio de palmas, ou ainda, associados à uma música. Esse trabalho poderia durar mais de um mês, dependendo da classe.
A seguir eram elaborados exercícios para o aperfeiçoamento do desenho das letras e algarismos. Os exercícios deveriam ser acompanhados pela construção de sentenças em cartazes ou no quadro-negro. Os temas deveriam se voltar para a vida prática, marcando uma aproximação entre o uso da escrita muscular e as teorias escolanovistas dos anos 1930 no Brasil.
“Quer nesta fase de recapitulação, quer no prosseguimento das aulas, todos os exercícios devem ser relacionados com projetos de vida prática, como relatórios, notícias, avisos, cartas, etc. Devem, por outro lado, levar a classe a resolver, eficientemente, os problemas de escrita apresentados em todas as aulas das diversas disciplinas. Assim como falar bem, claro e correto, não é uma exigência das aulas de linguagem apenas, assim também a boa escrita deve ser um característico de todo o trabalho escolar bem dirigido.” (Marques, 1936, p. 122)
As críticas
“Os hygienistas e educacionistas devem bem dirigir o alumno sem adoptar os extremos dessas theorias oriundas de partidarios á outrance dos seus methodos de ensino. O que convem é velar pelo bem estar do alumno, fazendo-o cumprir do melhor modo possivel a hygiene da leitura e da escrita, sem que haja constrangimento nos desempenhos dos seus deveres escolares. - O que se recommenda como essencial é o collegial ter apoiados os dois ante-braços até os cotovelos igualmente sobre a mesa e que seu corpo se mantenha recto sobre o assento.”(Idem, ibidem)
“calligraphia inclinada á esquerda; linha do olhar e cabeça inclinados á direita; [o aluno adquiria] escoliose de convexidade á esquerda;“calligraphia inclinada direita; linha do olhar e cabeça inclinados á esquerda; [o aluno passava a ter] escoliose de convexidade á direita.” (Pires, 1928, p. 19-20)
“Não nos parece acertado a imposição de um mesmo systema calligraphico a todos os escolares. Dada a diversidade providencial dos temperamentos, não se lhes pode talhar um mesmo padrão calligraphico. Por isto, não vem ao caso discutir qual o melhor typo de calligraphia: se o vertical, se o inclinado, ou se outros. O melhor é o que resultar da espontaneidade de cada aprendiz. É consequencia do geito e da indole, que é preciso respeitar.”(Dória, 1929, p.24)
Conceitos e suas associações
- caligrafia (modelos inclinado, vertical e muscular)
- método (intuitivo, analítico e sintético, global)
- escrita
- leitura
- ortografia
- linguagem
- alfabetização
Na década de 1940,
surgiu a caneta tinteiro e o lápis.
mas, foi somente quando surgiu a caneta esferográfica, que o aluno canhoto pode escrever com a mão esquerda. Usando a pena ou a caneta tinteiro não poderia escrever pois borraria seu trabalho.
A representação da escrita propiciou uma diferenciação entre a escrita na escola e a escrita em casa. A escola construía assim a representação da boa escrita.
Nos dias atuais, o computador muda novamente a constituição da escrita através do movimento sucessivo do “recortar e colar”.
Bibliografia
ESTEVES, Isabel de Lourdes. As prescrições para o ensino da caligrafia e da escrita na escola pública primária paulista (1909-1947). São Paulo: Dissertação (mestrado): USP. Faculdade de Educação, 2002.
VIDAL, Diana Gonçalves. “Escola nova e processo educativo”. In: LOPES, Eliane Marta Teixeira et alli (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
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