OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de; FERREIRA, Maria Clotilde Rosseti. “Propostas para o atendimento em creches no município de São Paulo” Cadernos de Pesquisa. N. 56, fev., 1986, p. 39-65.
Este texto opera com o período de 1946 a 1986; foi escrito, portanto, antes da aprovação, em 1996, da Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional – LDB 9334/96 – que consolidou a maior mudança da historia da Educação Infantil brasileira.
p. 40
As autoras iniciam apontando uma critica às creches e seu contraponto, para em seguida apresentar uma defesa.
A crítica: “O atendimento em creches é prejudicial ao desenvolvimento mental e emocional da criança, por fugir do modelo de cuidado materno.”
O contraponto: “Rutter questiona esse ponto de vista, mostrando que em varias instituições estudadas as crianças eram submetidas a uma alimentação precária e inadequada, alem de sofrerem privação não apenas da mão mas de estimulação sensorial e de um cuidado individualizado e efetivo com outros adultos.”
A defesa: “Quando o atendimento na creche é de boa qualidade, não há prejuízo para o desenvolvimento infantil, podendo haver inclusive vantagens, no caso da família viver em situação precária.”
p. 41
Diferentes atuações do Estado (= governo)
Creche direta → assumindo encargos de construção, organização e gestão [Leia sobre um exemplo deste tipo de creche nas paginas 51-53]
Creche indireta → construída e mantida pelo Estado, mas gerida por entidade particular [Leia sobre um exemplo deste tipo de creche nas paginas 55-58]
Creche conveniada → subvencionada pelo Estado, mas gerida por entidades particulares em prédios e instalações de sua responsabilidade. [Leia sobre um exemplo deste tipo de creche nas paginas 53-55]
p. 42
A creche é “um favor à família, uma possibilidade dada àquelas crianças para não se tornarem futuros marginais.”
O grande desafio está em mudar a concepção filantrópica para a pedagógica.
Filantropia / Assistencialismo = nutrição + higiene + saúde, além de atitudes de obediência + colaboração e auto-suficiência, submissas)
Pedagogia / Educação = alfabetizar ou não? Treino motor ou letramento ?, alem de atividades que exercitem a independência e o questionamento.
História / linha do tempo
p. 43-47
Veja também o esquema disponibilizado sobre o texto de Tizuko Kishimoto sobre instituições para crianças pequenas, existentes no Brasil antes dos anos 1920.
1877 – Jardim da Infância da Escola Americana (hoje denominada Mackenzie)
1896 – Jardim de Infância da Escola Caetano de Campos
Anos 1920 – Primeiro movimento no oferecimento de vagas publicas nas creches devido ao aumento da população local e dos imigrantes + o processo de industrialização com suas reivindicações acerca da qualidade de vida.
1935 – Parques Infantis Municipais
1950 – Criação da Secretaria da Família e do Bem-Estar social – FABES
Anos 1960 – Primeiras creches municipais na cidade de São Paulo (1967) + primeira organização do trabalho pedagogico:
- programação para o trabalho junto às crianças e famílias;
- treinamento de pessoal;
- supervisão.
1970 – “Mães-crecheiras” ou “segundas-mães”, era disponibilizada uma verba para mulheres da comunidade para cuidarem durante o dia de duas ou três crianças da vizinhança, além das suas.
1972 – Os Parques Infantis se transformam nas EMEIs: Escolas Municipais de Educação Infantil.
1980 – “Todos os tipos de creches estavam com o dobro de sua capacidade teórica de lotação.” P. 45 Então, ocorreu o segundo movimento para o aumento de vagas nas creches por causa da pressão feita pelo MOVIMENTO DE LUTAS PRO CRECHES.
Análises das propostas
p. 47- 51
1970 – Educação compensatória, a criança era vista como carente cultural. Este movimento procurava explicar e solucionar as desigualdades sociais compensando as “carências” da criança pobre através de programas de reforço pedagógico. “Nesta perspectiva, as características sociais e culturais de uma determinada população é que a tornariam inadequadas na sociedade.”
“Com isto se atribuía à educação escolar o papel de resolver os problemas que não se pretende resolver. E isto nada mais é do que um recrudescimento de ideologia liberal e da escola com redendora da humanidade.” P. 48
Centros Infantis - Proposta de integração com as famílias
“Novamente se perde a perspectiva critica de analise do desenvolvimento de crianças de camadas de baixa renda, não sendo tomado o contexto social em que aquelas famílias se inseriam. Em que pese a inadequação de determinados comportamentos e praticas de relacionamento entre os membros da família, deve-se lembrar que tais praticas, e os valores nela incluídos, no seio de sua relação com o mundo, como fruto de interações com seu ambiente. Considerar um determinado padrão de convivência e propô-lo a varias famílias, ignorando a especificidade da historia de cada uma delas é normalizar a família, criar-lhes problemas de identidade. É intensificar a dominação a que esta já está submetida na sociedade.” P. 48
1979 – Surgiu uma nova proposta:
“Foi proposta a participação da família na creche, expressando seus interesses, expectativas, e manifestando-se quanto ao atendimento que seu filho recebe; para isto também se propunha a organização de associação ou grupo de pais, para atuarem como grupo de pressão e controle de creche, realizarem promoções diversas e contatos com a comunidade local e participarem de movimentos comunitários por melhoria da qualidade de vida.” P. 50
Não obstante tudo isto, a má administração na expansão de creches, distanciava o discurso das propostas com a prática do dia a dia.
Resultados da pesquisa
- o pedagógico é confundido com o modelo tradicional: “lições realizadas pelo conjunto das crianças ao redor de uma mesa em uma sala, consistindo basicamente de exercícios gráficos feitos de forma padronizada, repetiva.” P. 59
- o treino é usado com estratégia de aprendizado;
- pouca atenção nas interações adulto-criança e criança-criança, como elemento básico para o desenvolvimento infantil.
- a perspectiva do trabalho com a família é paternalista porque é vista como frágil, sendo seus elementos constituintes vitimas das condições de miséria e da ignorância.
As autoras concluem afirmando que o debate de ontem ainda é o de hoje.
A creche ainda é vista como substituta da família; e, o que se discute é que a creche é um meio socializador diferente do familiar. É complementar.
Embora, não possa prescindir dos cuidados físicos, a ação da creche não pode se limitar a eles.

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